Técnicas para a produção de fotos panorâmicas com software livre serão apresentadas na Latinoware

A produção de fotografias panorâmicas 360×180º usando apenas software livre será o tema de uma das palestras de Carlos Cartola. O objetivo é mostrar que é possível chegar a resultados profissionais utilizando o software livre.

Cartola, que fotografa desde 1985, lembra que revelava as fotos no banheiro de casa e construía ampliadores, tripés e máquinas fotográficas caseiras. Ele faz panorâmicas desde 2002, área na qual se especializou e, inclusive, chegou a comercializar cabeças de tripé que construía.

Engenheiro Eletrônico formado pela UFRJ, Cartola participou da organização da BSDCon Brasil (2003), da criação da BSD em Revista e do myfreebsd.com.br. Além disso, mantém um blog de fotos 360º, com publicações semanais, e criou o PanoFórum, o primeiro fórum aberto em língua portuguesa dedicado à fotografia panorâmica.

– O que te levou a se especializar em fotografias panorâmicas?
Não tem uma resposta muito objetiva para isso. É um pouco por ser algo que pode dar trabalho, mas que tem um resultado fascinante. Isso vira uma cachaça. Às vezes você quase desiste de montar uma que teve algum percalço, mas, quando termina, já quer outra. Quando olho para as fotos que fiz, para montar, às vezes acho bem sem graça, mas quando termino acho sensacional ver o lugar como se eu estivesse lá. É meio transcendental.

– Como surgiu seu interesse por software livre?
Isso começou já na faculdade. Em 1992 me tornei administrador de um laboratório de estações Unix na faculdade. Na instituição não tem muito como ficar comprando softwares, e piratear para uma estação Unix não era viável como era para Windows, algo comum na época. A busca por ferramentas gratuitas foi um caminho natural. A própria Digital, um dos fabricantes de estações que tínhamos, fornecia um CD com “freeware tools”. Depois você vai conhecendo a filosofia por trás e vê que há mais do que simplesmente programas gratuitos ou de código fonte aberto. Há toda uma ideologia de colaboração e respeito ao próximo, de entender que o que fazemos é de todos, e o fazemos com base em conhecimentos e experiências que o mundo nos deu, muitas vezes de graça também. Essa cultura capitalista que aprendemos é um pouco destrutiva, na minha opinião. Um monte de gente fica querendo ter uma ideia inovadora para esconder o segredo e ganhar em cima dos outros com isso. Não acho isso bom, mas nosso mundo está fortemente baseado nisso e é difícil mudar paradigmas em uma cultura.

– Quais são as vantagens de utilizar o Software Livre para quem edita ou cria imagens panorâmicas?
Acho que, notadamente, as vantagens de se usar software livre, de uma maneira geral, são a independência de um fornecedor, a possibilidade de alteração e o uso indiscriminado do software, a maior adaptabilidade do software a diferentes situações, o custo zero e o benefício social e econômico. Com um software livre, podemos fortalecer a comunidade local, que pode se apropriar da tecnologia sem custo, viabilizando o surgimento de pequenos negócios com menor necessidade de investimento inicial. Isso pode beneficiar a comunidade local, sem necessidade de envio de divisas a outros países ou regiões mais distantes, onde está o detentor do direito de propriedade. Nesse nicho, particularmente não vejo uma vantagem de qualidade da ferramenta propriamente dita. Há ferramentas comerciais muito boas e talvez até melhores. Conheço pessoas que experimentam as duas e preferem a comercial. Acho que isso tem que ser respeitado.

– Apesar de a foto panorâmica ser um produto que já é feito por profissionais da fotografia há mais de uma década, ainda assim é um tema relativamente desconhecido. Que funcionalidades você irá apresentar aos participantes da Latinoware 2014, para que se interessem por esse método?
A maioria dos que entram nesse ramo utilizam equipamento específico, tendo isso como uma premissa. Vou mostrar como usar um prumo feito com linha e chumbo de pesca para substituir o uso do tripé e de uma cabeça de tripé específica para fotos panorâmicas 360°. Isso é algo que me parece que poucos profissionais fazem. Tem vantagens e desvantagens, mas acho que tem vantagens para a maioria das situações.

– Você também irá ministrar sobre as manipulações que podem ser feitas com o GIMP. É verdade que é possível manipular um clareamento dentário e até mesmo uma lipoaspiração com o programa?
Sim. Esses exemplos são bem radicais. Minha ideia é, na medida do possível, tirar fotos de pessoas voluntárias durante o evento, antes da apresentação. Vou apresentar algumas imagens pré-selecionadas para que o público escolha e começo fazendo uma “maquiagem”. Pele, “bumbum de neném”, rouge, rímel, mudança da cor dos olhos, tudo isso dá pra fazer. Na medida que vou fazendo, vou apresentando as ferramentas do GIMP. Com o andar da carruagem, chego aos efeitos mais radicais, como o clareamento dentário, redução de nariz, mudança de formato do rosto e outras.

– Que outras funções simples podem ser realizadas com o GIMP?
Ele faz tudo o que se pode imaginar em manipulação de imagens e ilustração. Essa segunda não é a minha praia, mas conheço profissionais que só usam ele. Dentro da fotografia, coisas bem simples de se fazer com ele são o corte da foto, remoção de olhos vermelhos, clareamento de fotos escuras, etc. Com as ferramentas que mostro é possível restaurar fotos antigas ou danificadas, corrigir cores e melhorar fotos levemente desfocadas.

– Como tem sido a utilização do software livre nos seus trabalhos?
Ele me atende muito bem, principalmente na questão de poder ser usado em várias máquinas bem heterogêneas. Em casa tenho FreeBSD, Linux e até Windows. No computador da empresa hoje estou com Linux, mas já foi Windows e essas multi-plataformas nunca foram problemas para o uso das ferramentas.

– Qual é a expectativa de compartilhar sua experiência?
Uma coisa que vejo como importante nesse compartilhamento relacionado à fotografia é a possibilidade de sensibilizar pessoas que nunca ouviram falar em software livre para questões que vão para além do software e de uma opção técnica. Não é só uma questão técnica, absolutamente. Quando as escolhas se tornam coletivas, isso influencia toda a sociedade, todo o mundo. As escolhas que fazemos, sejam quais forem, têm sempre consequências políticas e sociais na medida em que outras pessoas também fazem. Já dei muita palestra mais técnica e, em geral, o público delas já é envolvido com o software livre. Minha ideia para o futuro seria conseguir alcançar fotógrafos do mercado com esse tipo de reflexão. Já conheço comunidades de “fotógrafos opensource”, mas ainda não vi isso no Brasil. Acho que vou criar um grupo no Facebook e outro no Google+ 🙂

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