Cesar Brod faz parte da história das 10 edições da Latinoware. Ele já foi coordenador dos temários durante várias edições do evento, inclusive na primeira. Na 10ª edição da Conferência, Brod vai apresentar algumas das principais novidades sobre as tecnologias livres. Esse ano, ele apresentará duas palestras focadas em programação com o Scratch e desenvolvimento de jogos com o Pygame, temas presentes na nova publicação do especialista, “Aprenda a Programar – A arte de ensinar o computador”.

Na 10ª edição da Conferência, Brod vai apresentar algumas das principais novidades sobre as tecnologias livres
Confira a entrevista completa com o palestrante:
Como foi coordenar o temário da Latinoware?
É tanto trabalho que, a cada vez que o evento estava para começar, eu prometia para mim mesmo que jamais coordenaria novamente o temário de um evento. Depois, no último dia, apreciando o resultado e a felicidade estampada, junto com o cansaço, no rosto de todos os colaboradores, eu queria mais era começar logo a trabalhar na preparação do evento seguinte. Eu sei que é exatamente isso que o Duda Nogueira sente como o coordenador atual e, como eu pude, sei que ele também pode contar com o apoio profissionalíssimo do pessoal do PTI e da Itaipu Binacional.
Como você se envolveu, pela primeira vez, com software livre?
Tenho que forçar bastante a memória para responder a essa pergunta. A verdade é que eu envolvi-me com o software antes dele tornar-se proprietário, ou ao menos antes de eu ter consciência dessa propriedade. Na época em que comecei a trabalhar com computadores, no início dos anos 1980, com sistemas de grande porte que conviviam em um mundo dominado pela IBM (a primeira linguagem de programação que aprendi foi o Assembler IBM /370), nós tínhamos o código dos sistemas totalmente aberto à nossa frente e sequer pensávamos antes de trocar rotinas de testes ou de qualquer outro tipo entre os que viviam no mesmo mundo. Ainda que já pudesse existir (e hoje sei que existia) algum impedimento legal para a livre troca de códigos, isto estava distante da nossa realidade.
Mas e o software livre como conhecemos hoje, conforme definido pela Free Software Foundation, o mundo GNU/Linux, LibreOffice e outros?
Então, no início dos anos 1990 passei a trabalhar para a Tandem Computers (hoje uma divisão da HP). A reserva de mercado para a informática no Brasil começava a relaxar e as empresas multinacionais que começavam a se estabelecer no país precisavam capacitar, rapidamente, os técnicos brasileiros que contratavam. Quem falasse bem inglês e tivesse uma boa formação técnica passava por um ótimo momento no mercado de trabalho. Eu (e várias outras pessoas em situação similar) passei vários meses nos Estados Unidos e no Canadá sendo treinado em muita coisa: Unix, sistemas operacionais tolerantes a falhas para processamento paralelo massivo, TCP/IP e outros protocolos de rede. Em 1992 minha filha mais nova, a Ana Luiza, nasceu e eu queria parar de viajar um pouco. Por isso, pedi a meu chefe que comprasse uma cópia (aí eu já sabia bem o que era software proprietário!) de um SCO Unix para meu laptop. Como o valor desse Unix era muito caro, meu chefe achou que sairia mais barato eu continuar viajando sempre que precisasse fazer instalações ou diagnosticar sistemas em nossos clientes. Na mesma época, porém, havíamos estabelecido uma conexão via satélite (64 Kbps para voz e dados) com a sede da empresa na Califórnia. Através dessa conexão eu podia dar um “telnet” para máquinas abertas na Universidade de Berkeley. Aí descobri os grupos de notícias Usenet e em especial o comp.os.minix, através do qual cheguei ao Linux. Isto foi em 1993 e não parei de usar o Linux desde então.
Mas foi só em 1999 o seu primeiro contato com o Linus Torvalds, Maddog e Richard Stallmann, certo?
Exato! Eu e o Fábio Wiebbelling, então chefe do CPD da Univates, fomos à LinuxWorld buscar “evidências” de que poderíamos migrar a Univates (Centro Universitário no sul do Brasil) para softwares livres. Era a época do lançamento das ações da RedHat no mercado, havia um certo fuzuê em torno do software livre, do código aberto. Enquanto o Fábio fazia as provas de certificação da SAIR GNU/Linux, eu entrei em uma sala vazia do centro de convenções e fiquei escrevendo. Momentos depois, senta-se um rapaz ao meu lado e começamos a conversar. Aquela coisa: de onde tu és, etc, etc. Até que ele me pergunta de que órgão de imprensa eu era. Quando eu disse que não era de órgão nenhum ele contou-me que aquela sala era só para os credenciados para a coletiva com o Linus Torvalds. Claro que não arredei o pé dali! Assisti a toda a entrevista! Alguns relatos que fiz sobre isso ainda estão espalhados pela web.
O Maddog você já conhecia de antes da LinuxWorld?
Mais ou menos. Eu o conhecia, ele não me conhecia. O que aconteceu foi que, por volta de 1997 tanto a empresa em que ele trabalhava, a Digital, quanto a minha, a Tandem Computers, foram compradas pela Compaq. Eu brinco com ele que fomos colegas de trabalho. De fato, conversamos mais na LinuxWorld mesmo. Ele sempre foi muito interessado pelo Brasil, já tinha conhecido o país através da Digital, mas sempre em viagens muito curtas. Quando convidei-o para vir ao Brasil ele não hesitou. Primeiro ele veio palestrar em um evento no Recife, se não me engano no final de 1999, depois no primeiro FISL e hoje ele praticamente mora no Brasil. Ele foi muito importante em todo o trabalho de bastidor para a adoção do software livre no Brasil.
E o Stalmann?
Os nerds, como eu, que já usavam o Linux, já conheciam o trabalho de Richard Stallmann, o GNU, a Free Software Foundation. Assisti a palestra dele pela primeira vez neste mesmo evento. Depois assisti a mesma palestra várias outras vezes. Acho a contribuição de Stallmann e, por extensão, da Free Software Foundation, fundamentais para o software livre, mas acho que importamos uma confusão e uma briga desnecessária para o Brasil.
Você quer dizer os termos Free e Open?
Exato! Temos palavras separadas para livre e grátis. Tanto no Brasil quanto em todos os países latinos. Ninguém toma uma cerveja livre, todos tomam cerveja grátis. E a maioria entendia que o código de um software livre era aberto, não necessariamente gratuito. Importamos um mal entendido alheio à nossa cultura em função do duplo sentido, em inglês, da palavra Free. Para mim software livre e código aberto são a mesmíssima coisa.
Você criou o modelo de negócios que deu origem à primeira cooperativa de desenvolvimento de software livre do mundo. É notável o sucesso da Solis e sua capacidade de gerar novos talentos e mesmo novas empresas. Por que esse modelo não é mais copiado?
Penso nisso muitas vezes… Quando criamos a Solis – e cabe aqui dizer que o modelo foi uma criação conjunta minha, do Professor Eloni Salvi e do Fábio Wiebbelling com o apoio de muita gente boa como o professor Derli Schmidt, o reitor Ney Lazzari, o administrador João Alex Fritsch e todos os que, em seguida, tornaram-se os fundadores da cooperativa – nós expusemos seu estatuto, regimento interno, tudo o que dizia respeito à cooperativa, na expectativa de que o modelo fosse amplamente copiado. Fiz palestras em vários lugares do Brasil e do mundo sobre este modelo. Na época, a iniciativa Linux Around the World do Maddog estava muito ativa e fizemos a Solis aparecer em cada canto do mundo. O modelo cooperativo de produção de software livre acabou gerando outros casos além da Solis no Brasil e na Argentina, até onde eu sei. Acho que há alguns motivos para ele não ser tão replicado em nosso país: o primeiro é que é muito difícil, em função da lei das licitações, uma cooperativa vender para órgãos de governo. Outra razão é que no interior do Rio Grande do Sul, onde surgiu a Solis, já existia uma cultura cooperativista ancestral. Muitos pais, tios, avós ou outros parentes dos cooperados da Solis estão, ou estiveram, envolvidos na produção rural em forma cooperativada. Esta cultura, muito próxima à cultura de compartilhamento do software livre, foi propícia ao modelo da Solis. Não há, necessariamente, esse antecedente cultural em outras regiões do país.
Para que essa entrevista não fique eterna, o que você está fazendo agora?
Desde que saí do governo, depois de ter ficado quase um ano no Ministério do Planejamento, tenho me concentrado na produção de conteúdo (meu quinto livro, o terceiro de papel, está para ser lançado), tradução e pequenos trabalhos de consultoria, especialmente envolvendo o Scrum e o gestor de conteúdos Drupal. Meu livro de Scrum está vendendo muito bem e acaba de ter uma crítica muito positiva do portal Efetividade.Net. Um trabalho que fiz para a prefeitura de Itatiba, sobre o qual espero poder falar mais na Latinoware e que diz respeito ao estabelecimento de um diálogo tecnológico entre alunos e professores do ensino fundamental, será lançado no dia 17 de outubro. Meu novo livro, “Aprenda a Programar – A arte de ensinar o computador”, com um prefácio belíssimo do Rubens Queiroz de Almeida também está quase saindo do forno. E tem mais os e-Books “Semente” e “Fantasmas”, uma história de ficção científica e um conto Dickensiano que o pessoal também encontra em versões web.
Última pergunta! Quais são as suas palestras na Latinoware?
Duas palestras estão diretamente relacionadas com o novo livro: falarei sobre programação com o Scratch e desenvolvimento de jogos com o Pygame. Estas palestras são bem introdutórias. Quem nunca programou e quiser assistir às duas palestras, nesta ordem, terá uma boa base para buscar mais informações. Também falarei sobre Scrum e, em outra palestra, sobre Planejamento Estratégico com Software Livre. Peço aos leitores que confiram a programação do evento e fiquem atentos aos horários.