
“Com o software livre, as pessoas determinam suas próprias regras”, afirma Gonçalves
A trilha de Educação da Latinoware este ano abordará diversos temas. Estão previstas apresentações, jogos, mesa de debates, tudo para esclarecer e incentivar o uso dos software livres no processo educacional. A discussão não ficará limitadas às questões formais da educação, a educação popular e inclusão também serão debatidas. O biólogo, professor e ativista do movimento software livre, Frederico Gonçalves Guimarães, adianta o que será destaque na Conferência. Confira a entrevista:
Quais são as atividades previstas para a trilha de Educação durante a Latinoware?
Como todos os anos, estamos tentando priorizar a diversidade de temas, tentado abordar os diversos aspectos do uso educacional de softwares livres. Inclusive para esse ano temos prevista uma mesa de debates chamada “Educações”, onde discutiremos não só a educação “formal” como também educação popular, educação libertária, hackerismo e inclusão.
Quais são as novidades relacionadas ao software livre na educação que serão apresentadas?
Já temos confirmadas, além da mesa citada acima, oficinas em conjunto com a robótica livre e a apresentação (com uma possível oficina) de um jogo chamado Minetest, que possui diversos elementos do famoso Minecraft, com a diferença que é livre e muito simples de ser modificado. Dessa forma, pretendemos levantar a discussão de como usar esse jogo para aprender programação e estimular o trabalho colaborativo.
O software livre pode ser utilizado como uma ferramenta educacional? Como? Quais são os benefícios, tanto para a formação de educadores como de estudantes?
Sem sobra de dúvidas! Arrisco inclusive afirmar que a única forma de se trabalhar a educação em seu sentido pleno (considerando-a como um meio
para o estímulo da criatividade, colaboração e solidariedade) é através do software livre, uma vez que ele nos dá plena liberdade de ser manipulado e distribuído. Ao aprender com o software proprietário, a pessoa está presa a uma lógica que foi pensada para a venda de um produto, atrelando-a aos direcionamentos de quem o desenvolveu. Já com o software livre, as pessoas determinam suas próprias regras. Costumo dizer sempre que o software proprietário estimula o consumo de tecnologia, enquanto o software livre trabalha a produção dessa.
Hoje, as crianças têm acesso às tecnologias cada vez mais cedo. Como isso mudou a forma de educar? Quais são os desafios para os educadores? O software livre já conquistou o seu espaço neste novo panorama educacional?
Um dos grandes desafios que a escola enfrenta hoje, especialmente quando insiste em um modelo ultrapassado de transmissão direta de conhecimento, é o fato de que os espaços de aprendizagem são diversos e, graças às tecnologias digitais, cada vez mais acessíveis. Antes, por exemplo, para ter acesso a determinado conhecimento teórico, a pessoa teria que possuir uma série de livros em casa ou então acesso a alguma biblioteca. Particularmente nas localidades mais distantes dos grandes centros urbanos, isso é algo bem complicado. Com a popularização do acesso à Internet (apenas para citar uma das tecnologias digitais), pode-se consultar os mais diversos materiais teóricos e debater e compartilhar ideias com pessoas literalmente do mundo inteiro.
Com isso, o educador perde o papel de “detentor do conhecimento” (papel esse que, convenhamos, nunca foi tão absoluto assim). Isso, na cabeça de algumas pessoas e instituições, é um grande nó e provoca uma série de conflitos. Portanto, é um momento bem oportuno para se discutir o que fazer diante disso, com a mente bem aberta e um espírito pronto para mudanças.
O software livre tem o potencial de catalisar dessa discussão. Infelizmente, ainda presos a um pensamento clássico da educação, muitos educadores não se deram conta da importância dessa filosofia. Mas acredito que isso é um processo e eventos do porte da Latinoware têm um papel fundamental na divulgação dessas ideias.