Cícero Moraes apresenta técnicas 3D na Latinoware

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“No Brasil tudo é muito novo, o interesse das instituições de ensino e instituições de policiais está se despertando agora”, afirma Moraes

O 3D artist and animator, Cícero Moraes, ministrará uma palestra sobre as técnicas aplicadas aos trabalhos de reconstrução facial forenses, escaneamento 3D por fotografias e reconstrução de tomografias computadorizadas. Moraes é um autodidata, profissionalizou-se pela internet e já escreveu dezenas de tutoriais sobre os temas. Atualmente dedica-se à reconstrução facial forense para arqueologia e desenvolve projetos no Brasil, Itália, México, Malta e República Tcheca. O especialista explica um pouco do seu trabalho e adianta o que será destaque na palestra durante a entrevista abaixo. Confira:

O que será apresentado na Latinoware 2013?

Vou apresentar as técnicas desenvolvidas por minha pessoa e uma série de pesquisadores nos campos da reconstrução facial forense, escaneamento 3D por fotografias e reconstrução de tomografias computadorizadas. Tudo feito com software livre e pronto para ser usado por qualquer pessoa eventualmente interessada.

Os trabalhos de reconstrução facial forense  são feitos com Software Livre, qual é a importância que o software livre tem no processo modelagem 3D?

O software livre oferece a oportunidade não apenas do profissional lançar mão da tecnologia, mas desenvolvê-la também. De adequá-la a uma determinada necessidade mesmo que essa seja específica ao extremo. Não podemos de deixar de falar no custo, que beira a zero, algo que muito interessa a instituições com restrições orçamentárias.

Essa tecnologia pode ser utilizada para quais fins? Você pode citar alguns exemplos, como a utilização em investigações policiais e na área de saúde?

No caso da reconstrução facial forense (RFF) pode ser utilizada no campo da arqueologia e da perícia criminal. Mas os estudos que estamos desenvolvendo na área da computação gráfica, como o escaneamento por fotografias, pode beneficiar a arquitetos, engenheiros mecânicos, publicitários e qualquer outro profissional que tenha a necessidade de digitalizar elementos sólidos do “mundo real”.

Falando de exemplos do uso de RFF, podemos citar os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Rússia como os países onde essas tecnologias se popularizaram e fazem parte do dia-a-dia das investigações policiais. No Brasil tudo é muito novo, o interesse das instituições de ensino e instituições de policiais está se despertando agora. Nosso intuito é justamente aproveitar essa motivação e inserir o software livre como referência para a RFF no país. No campo da saúde, tanto as técnicas de RFF, quanto o escaneamento por fotografias e a reconstrução de tomografias vem auxiliando o desenvolvimento de tecnologia para próteses, correção anatômica e até mesmo para cirurgias plásticas.

 

Tothmea

Processo de reconstrução facial com técnicas 3D da múmia egípcia Tothmea, exposta no Museu Egípcio e Rosacruz, em Curitiba (PR)

 

Você tem usado a tecnologia 3D para a reconstrução facial de múmias, como o caso da Tothmea,a  múmia egípcia exposta no Museu Egípcio e Rosacruz, em Curitiba (PR). Como é feito este trabalho e o que te motivou a fazer isso?

Cada reconstrução tem a sua história e quase um técnica própria. Tradicionalmente, para se fazer uma RFF eu recebo um crânio já digitalizado e sigo com os trabalhos de modelagem 3D reconstruindo os elementos anatômicos. No entanto, há casos em que o crânio precisa ser digitalizado e não contamos com tomógrafos, então fazemos fotos e digitalizamos. Em outros casos o crânio está incompleto e por conta disso lançamos mão de um banco de dados para completá-lo. Quando aparecem hominídeos, já extintos evidentemente, precisamos estudar a anatomia de análogos modernos, como macacos, para reconstruir os músculos, cartilagens e pele. E assim por diante. A motivação é o desafio de resolver um problema tangenciando várias área do conhecimento nesse mar de interdisciplinaridade.

 

Quanto tempo leva para recriar a face da múmia e quais foram as principais dificuldades?

Nos primeiros trabalhos eu levava muitos dias. As dificuldades maiores apareceram nessa fase, onde a experiência era pouca e a expectativa era grande. Além de não contar com conhecimento anatômico necessário, não havia uma oferta constante de crânios e os poucos que apareciam vinham com uma série de limitações atreladas a publicação dos resultados, o que é desmotivador para quem aprecia o compartilhamento de informação. Hoje, graças a metodologia que desenvolvemos e estamos em vias de oficializar um protocolo, consigo terminar o trabalho em poucas horas.

Na sua opinião, o que esse trabalho deixa de contribuição para a sociedade?

O conhecimento aberto, onde todos tem acesso e incrementam o leque de possibilidades, também melhorando o que já foi implementado. A interligação de conceitos científicos, artísticos e organizacionais, dando a chance de todos fazerem parte do processo. Por último, mas não menos importante, a possibilidade de resolver problemas que afligem uma série de pessoas. Seja aquele indivíduo cujo um ente querido desapareceu, um outro que precisa reparar alguma característica física que o impossibilita de ter uma vida plena ou mesmo um trabalhador, que antes não via o seu serviço render e agora com a ajuda da tecnologia pode trabalhar com mais dignidade e investir seu tempo em atividades que tragam mais sentido e alegria à vida.

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